11-09

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Digno de leitura e partilha, como sempre, do Pedro Santos Guerreiro.

“Faz hoje treze anos. Saddam morreu. Bin Laden morreu. A al-Qaeda está viva, o Estado Islâmico é ameaça maior. Há poucas horas, Obama anunciou um plano para destruir as forças terroristas na Síria e Iraque.

Em 2006, faz hoje oito anos, escrevi este editorial no Negócios:

Nós lembramo-nos bem do que estávamos a fazer quando soubemos a notícia. O 11 de Setembro de 2001 ficou-nos gravado na memória, porque foi brutal e inverosímil, e porque assistimos ao vivo. Nós lembramo-nos bem de ver o segundo avião violar a torre e a humanidade. De ver os corpos a preferir a queda suicida ao fogo homicida, de ver o pó cobrir a cidade e as pessoas, tornando-as todas iguais sob uma espessura necrófaga.

Vimos tudo isso em directo. E nós lembrámo-nos disso quando vimos explodir a estância turística em Bali, a estação de Atocha em Madrid e as linhas de metropolitano em Londres. Usando a expressão de Ian McEwan em “Sábado”, vimos “suficiente morte, medo, coragem e sofrimento para abastecer meia-dúzia de literaturas”.

Cinco anos não foram suficientes nem para esquecer a emoção a quente, nem para fazer a história a frio. Uma história que ainda se está a fazer, com duas guerras entretanto abertas pelos Estados Unidos, com uma meia-vitória no Afeganistão e uma invasão do Iraque que mentiu nos meios e falhou nos fins. Donald Rumsfeld, Colin Powell e Dick Cheney foram os falcões de George W. Bush, o homem que os europeus agora adoram detestar, que tem como grande aliado Tony Blair, o homem que os europeus até então adoravam adorar. Como diz António Vitorino, “o fenómeno do terrorismo global vai estar connosco durante muitos anos”. A estratégia europeia anti-terrorismo não é um caso de sucesso e, se em 2001 o mundo era “all american”, à união contra o terror sobreveio a divisão da política. Nem podia ser de outra forma. Ainda este fim-de-semana, os chefes de Estado e Governo da Ásia e da Europa reuniram-se para debater globalização, terrorismo, energia, alterações climáticas, liberalização do comércio mundial, diálogo cultural e competitividade. Quem discute tantos assuntos não quer resolver nenhum deles.

Felizmente para Portugal, o 11 de Setembro entrou-nos só pela TV – não pela fronteira. Temos pouco mais que falar do que da célebre cimeira dos Açores, em 2003, onde Durão recebeu Blair, Aznar e Bush para dar legitimidade internacional à decisão que os EUA já tinham tomado: invadir o Iraque. Não temos, como Espanha tem, a marca da Al-Qaeda: apesar de viver há trinta anos com terrorismo doméstico, Espanha haveria de ter o ataque mais sangrento da sua história em Atocha.

O 11 de Setembro trouxe o pessimismo e pôs a democracia no medo. A batalha contra o terrorismo não está ainda nem ganha nem perdida mas a Europa da tolerância, da imigração, do pote de culturas, da liberdade religiosa passou a tremer ante uma burca e a rodear de metralhadoras as suas competições desportivas.

A economia resistiu e essa é uma manifestação de sobrevivência. A maturidade das organizações internacionais garantiu que não se entrasse em pânico. As bolsas não se despenharam, o investimento não colapsou, o pessimismo não anulou o consumo, não estamos em economia de guerra. A factura está a ser paga no petróleo e mesmo aí evitou-se o choque inflaccionista, à custa de políticas monetárias, das empresas que cortaram custos e dos trabalhadores vítimas desses cortes. Mesmo nos EUA a economia está mais eficiente. A economia mudou, mas não parou. Nós lembramo-nos todos, mas também não parámos. Nem paramos.

Si no pudimos ser unânimes
Moviendo tanto nuestras vidas,
Tal vez no hacer nada una vez,
Tal vez un gran silencio pueda
Interrumpir esta tristeza,
Este no entendernos jamas
Y amenazarnos con la muerte,
Tal vez la tierra nos ensenie
Cuando todo parece muerto
Y luego todo estaba vivo.
Ahora contare hasta doce
Y tu te callas y me voy.

Pablo Neruda, in “A callarse”

O mundo foi sempre uma confusão.

José Pedro Gomes

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