A melhor cidade para abandonar

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Jornal do Centro – 14/11/2014

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O carácter transversal das políticas de juventude revela-se mais claramente na temática da emancipação jovem. Esta pressupõe a existência de liberdade, independência, realização individual e desenvolvimento pessoal. Nesse sentido, é fácil encarar a habitação e o emprego como elementos básicos de autonomização.

No actual contexto de crise, onde a lógica individualista acaba por ter supremacia, os problemas que verificamos são as dificuldades no arrendamento ou na aquisição de casa própria, o desemprego e a precariedade no emprego. Como consequência, no plano europeu, os jovens portugueses registam os mais tardios processos de autonomização pessoal.

A intervenção do Estado nestes domínios (incluindo as questões ligadas ao empreendedorismo e à mobilidade) reveste-se de crucial importância, na medida em que estamos perante questões de garantia de direitos sociais e de igualdade de oportunidades. O Estado não pode desvalorizar o contributo que esta juventude (a mais qualificada de sempre) está em condições de dar à sociedade portuguesa. E os próprios municípios, assumindo o seu papel central como agregadores de política jovem, têm que actuar com proximidade e fundamentalmente de forma integrada (educação, família, emprego, habitação, saúde), porque é isso que a emancipação exige.

Se quisermos falar do exemplo de Viseu em termos de políticas potenciadoras da emancipação jovem, concluímos que é difícil fazê-lo. É difícil, porque os eixos fundamentais não são cumpridos. Se falarmos em habitação, e se pensarmos que a política habitacional será melhor, quanto mais orientada estiver para a fixação de jovens, para a requalificação urbana e a revitalização do centro histórico, para o apoio ao arrendamento e a aquisição de habitação a custos controlados, reparamos que só agora começam a surgir medidas nesse sentido. Vamos ver. E se falarmos em emprego, o eixo mais importante deste processo, estamos conversados. Há quantos anos não se instala em Viseu uma empresa criadora de pelo menos 50 postos de trabalho? Não é por acaso que Viseu tem um “aparente” dinamismo económico e, ao mesmo tempo, vê as suas gerações mais jovens a abandoná-la.

Já são anos a mais para não acreditar que esta estratégia laranja seja deliberada, e isso preocupa-me. Porque, neste caso, é de emancipação que estamos a falar. Da capacidade de se construir um futuro. O início de um projecto de vida. Um dia destes, arrependem-se a sério, porque olharão para o futuro e não verão nada. E de “melhor cidade para viver”, passará mesmo a “melhor cidade para abandonar”.

José Pedro Gomes

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