Acompanhar a mudança da juventude; o que (não) sabemos e o que alguns acham

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A cultura jovem tem padrões independentemente da nação, do tempo ou da cultura. Fazem parte destes padrões a curiosidade, o desejo de mudança, a experimentação, o questionamento dos padrões tradicionais, a irreverência, o sonho de um mundo melhor e a vontade de fazer um mundo diferente.

Não existem dois jovens iguais, tal como também não são imutáveis as preferências, gostos ou convicções do mesmo jovem ao longo da sua vida. Mas é esperado que um jovem veja concretizado o acesso à educação e formação, o acesso à saúde, à participação cívica e à sua emancipação. Estamos porém muito aquém de conseguir em plenitude aquilo que defendemos.

Compete ao Conselho Nacional de Juventude, como plataforma representativa das organizações de intervenção juvenil, estudantil, sindical, partidária, desportiva, cultural, ambiental, escutista e confessional, perceber de que forma um jovem vê concretizados os seus direitos hoje, para que possa amplificar as prioridades da juventude portuguesa, para hoje e para amanhã. Compete-lhe ocupar um lugar de charneira no desenho e na implementação de políticas públicas de juventude, sem se deixar circunscrever a uma ou outra área de trabalho, mas focando transversalmente todos os setores da política pública que podem permitir aos jovens a completa construção da sua personalidade, a sua integração na vida adulta e a sua intervenção cidadã ativa e plena – sem prejuízo de outras respostas que sejam exigidas pelo momento político nacional e internacional.

É no cumprimento desta missão que quando falamos hoje de um jovem que participa estamos a falar de um cidadão entre os seus 15 e 30 anos, que é cívica e socialmente ativo. É falar de alguém que goza do seu direito de voto mas também de todos os seus outros direitos, realizando-se pessoalmente ao dedicar-se a projetos de índole associativa, cooperativa ou empresarial, e que tem acima de tudo gosto em capacitar-se para a vida ativa, para a inovação, para a criação e para o serviço à comunidade.

A título de exemplo, olhemos para o caso da educação. O ano de 2016 marca, entre outras datas de reconhecida importância, 30 anos de consolidação da democratização do acesso ao ensino e formação – plasmada no Lei de Bases do Sistema Educativo – que contribuíram para que hoje a minha geração seja a “geração mais qualificada de sempre”. Esta é aliás uma das várias criativas etiquetas que a juventude portuguesa ganhou no espaço mediático: “geração à rasca”, “geração dos nem-nem”, “geração que teve de abandonar o país” ou “geração do Facebook” que, vezes sem conta, aparecem nos discursos dos decisores políticos precedendo o anúncio de uma qualquer medida de apoio, de intervenção ou de solução mágica desenhada por em gabinetes por técnicos e políticos, mas poucas vezes com os próprios jovens. Dá-me por vezes a impressão de que poderíamos também ser geração dos jargões, mas adiante.

O que mais me incomodou até hoje foi de longe o da “geração desligada e amorfa”, não só porque é errado, como também mostra possivelmente a maior fraqueza do setor da juventude: não se querer perceber que dados ou falta deles, e que agendas, justificam cada uma destas etiquetas.

Vejamos:
Quem é que pode dizer que temos uma geração que tem mais habilitações, que está mais instruída, e dizer com a mesma certeza que está também amorfa, desinteressada e sem expectativa?
Quem é que pode dizer que temos licenciados a mais e que não há emprego para todos eles?
Quem é que pode dizer que os jovens não votam, não querem saber de participar na sociedade e que não se envolvem na sociedade e comunidades em que vivem?

Diz estas coisas quem “acha” que assim é. Quem acha que pode avaliar os números de ingressos no ensino superior, ou o abandono escolar precoce com os 30 ou 40 jovens que tem à sua frente. Quem acha que pode relacionar a formação e o desemprego jovem sem falar da clara desadaptação da oferta formativa ao mercado de trabalho ou da mais longa escolaridade obrigatória da Europa sem orientação profissional. Quem acha que alguma vez foi contabilizada em Portugal a abstenção dos jovens em eleições gerais, por exemplo.

Desconsidera-se a realidade da mobilidade, do voluntariado, do dinamismo do associativismo estudantil e juvenil, e todas as outras organizações de juventude, das inúmeras iniciativas locais, regionais, nacionais e internacionais…

Um dos maiores problemas do setor da juventude é achar-se tanto e saber-se tão pouco. Não temos um retrato transversal da juventude portuguesa, mesmo apesar de termos de desenvolver uma ação política transversal: da saúde à segurança social, à economia, ao ensino, ao desporto, ao emprego, à inclusão; ao combate à marginalização, ao combate à pobreza.

Como país, acompanhamos a mudança? Não; o problema é tantos continuarem a achar que sim.

Hugo Carvalho – Presidente do Conselho Nacional da Juventude | Convidado da Quadratura da Sé