Afinal o que é a CPLP?

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A pergunta impõe-se, apesar de Mário Nogueira afirmar que é o “Cindicato de Professores de Língua Portuguesa”. Alertando para o mau português do cavalheiro, posso garantir que não é. A CPLP é a comunidade de países de língua portuguesa, uma commonwealth à medida de Camões, segundo os amantes de W. Shakespeare. Mais uma pequena amostra desse conceito algo vago e sem poder efectivo que é a comunidade internacional (CI).

Sempre que ouço alguém dizer que a comunidade internacional reagiu assado e declarou cozido fico sem perceber quem é o sujeito em causa e onde se encontra. E como qualquer sujeito, eu diria mesmo fulano, esta CI, por vezes “espanta-se”, outras “choca-se” e por fim lá “exige” como que manifestando a sua (a nossa?) Humanidade. Ali qualquer problema é resolvido com grandes resoluções e proclamações mas qualquer decisão ou tomada de posição dessa comunidade de boas almas  ( “amanhã é o dia da proteção das batatas e das couves” ou “proíba-se a fome!”) é tão credível quanto … o poder de veto e/ou militar do próximo ou, sejamos rigorosos, as promessas da Miss Universo de querer acabar com a fome.

Bom, mas por falar em comunidades, no próximo dia 23 de Julho, na cimeira de Díli (Timor-Leste) a diplomacia do nosso país vai assinar a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, país onde 520 mil pessoas vivem sobre um oceano de petróleo espraiado no Golfo da Guiné, conhecido como o coração geográfico da Terra por ali se encontrarem as linhas do Equador e do meridiano de Greenwich.  Leio, no jornal Público, a seguinte maravilha: “os países africanos de língua portuguesa têm, há muito, uma boa sintonia com o regime de Teodoro Obiang, há 38 anos no poder em Malabo”. Sobretudo, Angola. Alguém ficou admirado? Vamos por partes. Primeiro, quem é Teodoro Obiang? Explicação LowCost (sim, porque eu também vou à wikipédia): é o actual presidente da Guiné Equatorial e foi eleito pela revista Forbes o oitavo governante mais rico do mundo, apesar de o seu país ser considerado um dos mais pobres do mundo. Esta situação está para África como a sardinha em lata está para Portugal: verytypical, portanto. A Guiné Equatorial é um país riquíssimo, o PIB per capita equipara-se e é um petro-estado, exportando para vários países, entre eles o Brasil (o que explica o colossal apoio de Lula “Mensalão”da Silva à entrada deste país na CPLP). Portanto, é o clássico fenómeno africano. Mas a conjugação, numa frase, do nome de Lula com petróleo e Guiné cheira a esturro, não é? Calma que não fica por aqui. A última disputa pelo poder foi em 1979, quando Obiang liderou um golpe, prendeu e mandou fuzilar o tio, o ditador Francisco Macias Nguema. O primeiro presidente pós-independência da Espanha, Macias foi um déspota delirante e violento: proibiu a pronúncia e a impressão da palavra “intelectual” (o que diriam os intelectuais de António Costa?) e comandou o assassinato de pelo menos 50 mil pessoas (um sexto da população na época). Mas não julgue que a Democracia guineense não tem evoluído: Macias nunca admitiu eleições; já o sobrinho sobreviveu a 5 idas às urnas, declarando-se vencedor em todas. Como a união faz a força, a oposição está toda juntinha, no conforto da prisão, onde a tortura é o prato do dia segundo a HumanRightsWatch.

Segundo, foi Teodoro, num momento à KemalAtaturk (curiosamente outro ditador) quem impôs o português como língua oficial do país e, por isso, não é uma expressão directa e cultural do povo, muito menos uma evolução ou manifestação da sua vontade. Até porque imagino que num país com tanta pobreza o povo se está a marimbar para a língua falada no seu país, seja ela a de Camões, Shakespeare ou mesmo de Nogueira. Mas, bem vistas as coisas, em Timor o português também quase não era (e ainda não é) falado quando o país decidiu escolhê-lo como língua oficial e entrar na CPLP. Se Timor entrou, a Guiné Equatorial também pode, não é por aí.

CPLP 1

Continuando, diz-se que a situação dos direitos humanos, do respeito pela dignidade da pessoa é incompatível com os estatutos da CPLP. E Angola? Se tem havido alguma evolução nestes temas deve-se ao petro cash e riquezas semelhantes portanto, é deixar o José Eduardo dos Santos vender petróleo na CPLP. Em terceiro lugar, vem a questãozeca da pena capital (que a CPLP não tolera). Há agora, na Guiné Equatorial, uma moratória que impede a pena de morte antecedida, segundo a Amnistia Internacional, por uma execução massiva dos condenados até à sua entrada em vigor. Assunto resolvido. E ninguém suja as mãos com sangue.

 Ou seja, a pergunta é: a Guiné está no mesmo, digamos, “estádio civilizacional” que Portugal? Não, só 44% da população tem acesso a água potável, 39% das crianças são desnutridas, a diarreia, o sarampo e a pneumonia ainda levam à morte 55% das crianças com menos de 5 anos de vida, e 8 em cada 10 habitantes vive com 1 dólar por dia. Mas também Angola não está, nem Timor, nem a Guiné Bissau e, já agora, nem boa parte do Brasil cumpre o “padrão FIFA” que a CPLP impõe.

CPLP 2

Resumindo: o que é a CPLP se não uma comunidade de nações onde não se partilha a mesma língua ou cultura; sem valores e objectivos comuns; sem práticas políticas ou jurídicas coordenadas; com poucos benefícios ou facilidades comerciais; um grupo de países, sem vontade de harmonização das suas políticas, que se consideram “estrangeiros” uns aos outros? Bem se podia chamar União Europeia, para o efeito era o mesmo, uma comunidade em que nem todos falam português ou conduzem no lado certo da estrada.

 Graça Canto Moniz

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