Burning Bush

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A HBO bem se pode orgulhar com a segunda season de “Newsroom” mas o verdadeiro motivo para o regozijo é outro: uma mini série chamada “Burning Bush”, realizada pela polaca Agnieszka Holland (Europa, Europa; In Darkness; Washington Square), sobre o caso de Jan Palach. O leitor pode até não conhecer o nome mas aposto que o Will McAvoy conhece a história de Palach.

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Em 20 de agosto de 1968, as tropas do Pacto de Varsóvia, lideradas pela União Soviética, invadiram a Checoslováquia, pondo fim à Primavera de Praga. No inverno seguinte, a 16 de janeiro de 1969, com vinte anos de idade, Palach, estudante de história e economia política, imolou-se com gasolina na Praça Wenceslas, em Praga. Ao ver o sacrifício, os milhares de pessoas à volta dispersaram com medo das chamas. Com queimaduras em 80% do seu corpo, morreu três dias depois. Palach deixou uma nota protestando contra a invasão soviética de agosto de 1968, pedindo o fim da censura, o encerramento do jornal soviético Zpráva, e convocando uma greve geral. Bem vistas as coisas, “Burning Bush” faz “The Newsroom” parecer um teatro de criancinhas a brincar aos Homens do Presidente.

E nem pensar que esta é mais uma biopic falhada ao estilo principesco e girly do Mónaco. O roteiro da série concentra-se no impacto que a imolação teve no contexto social e político da época, o que a torna num capítulo bem convincente da História da Humanidade em que o medo finta o idealismo e a verdade nem sempre leva à Justiça.

“Burning Bush” tem 3 episódios a cores, com uma cartilha de rostos bem assombrados, repartidos em quatro horas que bastam para compreendermos a salada de grelos do estado comunista. Recria um país ocupado, um passado recente de grandes dificuldades e maiores medos, com alguns segmentos mais aborrecidos (para almas jurídica e estritamente moldadas bastante emocionantes, acredito) ao estilo “Law and Order” quando a mãe de Jan decide defender a honra e o bom nome do filho, difamados pelos comunistas. Em alguns momentos, “Burning Bush” assemelha-se a uma longa versão Checa do filme Alemão, “A Vida dos Outros” (2006) mas, em termos de reconstrução de uma época, é uma versão da cortina de ferro de “Mad Men”.

O contraste é grande com biopics cor-de-rosa e séries como “The Newsroom” cheias de jornalistas e de meninos e meninas bonitinhos, bem polidinhos, e profundamente afogados nos seus egos. O que, francamente, depois de uma lição de Humanidade ou Humanismo, é mauzote. Por isso, ver “Burning Bush” é voltar atrás no tempo (apesar de todas as contemporâneas e previstas primaveras) e avançar em termos de, digamos, sensibilidade. O próprio título apela a algo que ardeu mas que nunca foi consumido ou morreu: uma expressão, quem sabe, do legado de Palach. Algo que vai ardendo, portanto.

O trailer está aqui.

Graça Canto Moniz

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