E os carregadores, Joana?

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Na semana passada, circulou por aí uma campanha de sensibilização (esta expressão é muito pouco clara, diga-se), “E se fosse eu?”, na qual crianças, adultos e “personalidades” “brincavam” aos refugiados. Em concreto, pedia-se que cada um dos “entrevistados” simulasse um cenário de guerra, horror, tragédia, no conforto da sua escola, da sua secretária, respondendo à pergunta: e se fosse eu, o que levava na mochila?

Esta campanha deu que falar por várias razões, entre elas, porque algumas pessoas criticaram – e bem – o teor amoral deste tipo de campanha por pressupor que temos de ser outra pessoa, “estar no lugar dela”, para compreendermos aquilo por que está a passar. Por outro lado, parte de uma ideia um pouco simplista, quase de uma divisão da condição humana, do “nós” (quem? Europeus? Portugueses? Católicos? Cristãos?) vs. o “eles”. Aliás, foi lançada no dia Internacional contra a Discriminação Racial, o que ainda insinua a existência de uma outra “raça”.  Além disto, subjaz a esta campanha uma dose de paternalismo que não me agrada, como se  “nós” não soubéssemos que há um dever moral de acolher o próximo, sobretudo quando em circunstancias atentatórias da dignidade humana. É  mesmo preciso que a ONU, essa entidade tão bem sucedida na concretização dos sonhos das  candidatas a miss Universo, nos venha dizer o que fazer? Parece que sim. De resto, quanto às crianças, tenho muitas dúvidas que encarem a experiência com a seriedade e solidariedade a que o sofrimento dos refugiados obriga.

Mas, o que provocou um “acontecimento” ou, como se diz agora, o que “incendiou as redes sociais”, foi o testemunho da artista plástica Joana Vasconcelos que, questionada sobre o que levaria se fosse forçada a fugir e imaginando que a casa foi ao ar com uma bomba, que a mãe morreu, que os amigos desapareceram, que dormiu ao frio durante uns dias, que teria de atravessar o mar em condições indescritíveis (muitas vezes em bóias e pneus), enumerou: “o caderno, para fazer desenhos; o iPad, para ter toda a informação e as fotografias; os fones, para ouvir música; os seus lápis, para fazer desenhos; os óculos de sol; todas as suas jóias portuguesas; levava as lãs e a agulha, para qualquer eventualidade; e o iPhone, para comunicar com o mundo”.

As críticas ao seu testemunho já foram várias mas nenhuma foi ao essencial: e os carregadores, Joana?

Graça Canto Moniz