Europa: as eleições e um desabafo

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A campanha foi fraca. Paulo Rangel “puxou” por ela. No mau sentido, e perdeu. Francisco Assis, a meu ver, fez o possível e esteve bem, perante uma “Aliança Portugal” nervosíssima.

A campanha foi fraca na discussão do essencial. A política portuguesa tem-se tornado uma lixeira a esse nível. E para isso, muito tem contribuído este Governo quando, por exemplo, no mesmo discurso junta apelos ao consenso e ataques a prioridades e visões diferentes.

É normal para quem tem dificuldades em defender o que tem feito. Opta pelo ataque. Pessoalmente, não os condeno por pensarem de maneira diferente (era o que mais faltava). Só peço que não mintam e respeitem quem pensa de maneira diferente. Discutam e aceitem o facto de serem julgados pelo que executam! Podemos falar em saída limpa, como gostam de chamar. Ou então podemos enunciar os seus elementos, como a dívida pública nos 132% do PIB (belo trabalho!). Mas não encarem estas eleições como “acertos de contas”, como tentaram constantemente fazer. Só se os portugueses quiseram acertá-las convosco!

assisrangel

Estamos no final da campanha onde as várias gerações tiveram a oportunidade de conhecer (mal) as diferentes opções de voto.

Sou da geração em que a democracia é algo garantido. Em que a Europa é um facto normalíssimo. Sou da geração Erasmus. Da mobilidade. Das novas aventuras e da possibilidade de conhecer novos mundos. Sou também da geração que leva com “economicês” todos os dias. Desde que nasci sempre ouvi falar de crise. Não me lembro de ouvir os meus pais dizerem, por exemplo, “agora isto está mesmo bem”. No entanto, sou também da geração do sonho. Que gosta de sonhar. Não são os mesmos sonhos dos que na década de 60 e 70 tanto fizeram por nós. E por mim. Mas sou da geração da inovação, do empreendedorismo e do “fazer muito com pouco”. São sonhos diferentes. Sonhos deste tempo.

No entanto, estes sonhos só se concretizam com certas bases. O próprio empreendedorismo, por exemplo, só é possível porque há bases para tal. Há oportunidades e igualdade de acesso. Há educação. Há investigação. Há apoios e incentivos. Há estruturas. Há Estado! Um Estado que tem de continuar a pugnar por um mundo mais justo com oportunidades para os jovens demostrarem as suas capacidades e competências, e serem parte activa do projecto europeu. E sonharem!

É também isso que se escolhe no dia 25. É curioso observar que as eleições que menos interessam aos portugueses, são muito provavelmente as mais importantes para a sua vida e para os seus desígnios colectivos. Pelo menos, serão as que têm mais influência, mesmo que não reparem.

É nesta linha de pensamento que me assusta o facto da Europa ainda não perceber a desgraça para onde nos conduz. E assusta-me ainda mais que a Europa necessite precisamente de um “susto” para “acordar” (que “susto” será?).

Sem prosperidade, com estes níveis de desemprego estrutural, com a austeridade como mecanismo único, e com o discurso dos “TINA boys” (there is no alternative), para onde caminha a própria democracia? Resistirá a isto tudo? E se as soluções radicais começarem a ganhar verdadeiramente adeptos ao ponto de vingarem? Voltaremos a que tempo?

protestos na Europa

Domingo, não tenho dúvidas em quem vou votar. Ainda acredito que uma nova maioria de esquerda democrática na Europa seja suficiente para inverter a austeridade e o seu caminho destrutivo. Para já, e como já disse noutra oportunidade, é certamente o único caminho que prevejo para a indução de uma mudança de política na Europa e, por consequência, em Portugal.

José Pedro Gomes

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