Helena Guerra | “Deste lado do Atlântico”

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Convidada do José Pedro Gomes***

Há mais de uma década, pedi ao Zé Pedro para escrever para o Independências, o jornal online que eu criei e do qual fui diretora. A aptidão para a escrita e a opinião entusiástica de um jovem de 15 anos fizeram-me crer, e bem, que seria interessante ouvir o que os mais jovens tinham a dizer sobre a política em particular e a atualidade em geral.

Estava longe de imaginar que, cerca de 10 anos depois, não só o Zé Pedro continuaria a escrever sobre política, como ia pedir-me para escrever a minha perspectiva sobre Portugal e a minha experiência no Novo Mundo.

Provavelmente, não sou a portuguesa típica: não vou a Portugal em Agosto e em Dezembro para passar o Natal. Não sinto saudades, nem passo o tempo a pensar no que ficou para trás, talvez por não ter ficado muito. À medida que o meu avião partia na pista em JFK, rumo a Chicago, chorei… Mas de alegria e de alívio, rumo a uma nova etapa da minha vida.

Mesmo assim aceitei o desafio  do Zé Pedro e espero estar à altura.

Tento seguir a atualidade em Portugal através dos jornais online. Sigo com particular interesse as questões ligadas à Educação e à Justiça. No último governo, a Educação foi uma prioridade. Foram dados passos bastante importantes para a qualidade do ensino, como a avaliação dos professores, a promoção de programas que visavam massificar o uso dos computadores, o ensino do inglês desde o 1 ano do ensino básico e os programas de educação para adultos, como o Novas Oportunidades. Onde os políticos viram despesismo; instituições internacionais, como o World Bank, viram Portugal como o exemplo a seguir.

Estas medidas encheram-me de orgulho enquanto portuguesa, e é com enorme tristeza que tenho acompanhado o retrocesso. Lembro com indignação as declarações do atual ministro da educação em relação à falta de pertinência das  aulas de informática, “porque os estudantes têm hoje acesso a computadores em casa”. Isso podia ser verdade durante o período que antecedeu a este governo, mas seguramente neste contexto de crise não é a realidade. Fiz parte do grupo de crianças que não teve acesso a um computador mesmo após a massificação dos mesmos e poderia explicar em breves linhas ao ministro o quão errado está quem fala de cor, sem ligação à realidade que o rodeia.

O ensino que o ministro Crato está a implementar, é de elites. Parecido com o do Portugal dos meus avós, em que quem tinha acesso a educação, era quem podia pagar. A minha avó nunca aprendeu a ler ou a escrever.

Nos anos 50 e 60, a emigração portuguesa era constituída por mão de obra pouco qualificada, gente que partia para fugir a guerra e à miséria, que encontrava trabalho nas pescas, agricultura ou em fábricas. Portugal exporta agora licenciados para o mundo porque durante os últimos anos investiu na educação.

A mobilidade social em Portugal é das mais reduzidas da Europa. A escola deve ser a ferramenta para a igualdade e não o elemento que acentua a desigualdade como tem vindo a acontecer nestes últimos 4 anos.

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Washington DC, onde atualmente vivo, tem levado a cabo várias reformas no sistema educativo para assegurar que todas as crianças, independentemente do bairro ou da condição sócio económica em que se inserem, tenham acesso ao que de melhor a escola tem para oferecer: aprendizagem. Os professores e diretores são avaliados conforme os resultados dos alunos nos exames no final de cada ano letivo.

A escola está a ser encarada como o possível ponto de viragem nos problemas sociais, nomeadamente de pobreza e violência. Foram criadas bolsas de estudo para garantir que jovens de bairros problemáticos possam ir para a universidade. Graças a este esforço são cada vez mais comuns  as notícias que dão conta de jovens sem abrigo ou oriundos de famílias empobrecidas, a estudar em prestigiadas universidades em DC, como a George Washington ou a Georgetown.

A situação está a melhorar também graças ao empenho da comunidade que se mobiliza para resolver os problemas. Essa foi uma grande lição que aprendi nos Estados Unidos: as pessoas acreditam no poder do indivíduo como foco de mudança e esperam muito pouco do Estado.

Nestes últimos anos, aprendi que todos os países têm coisas positivas e negativas, e que os emigrantes podem ser o agente da mudança. A experiência de vida noutros países pode ser muito interessante para o próprio e ser uma mais valia para o país de origem.

Perguntam-me sempre se pretendo regressar a Portugal. Não penso em voltar, mas também nunca pensei que um dia estaria a viver deste lado do mundo.

***Helena Guerra nasceu em Lisboa em 1978. Estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde também fez o Mestrado em Direito Fiscal. Vive nos Estados Unidos. Foi assessora do Diretor de uma campanha ao City council de DC. Em DC dá apoio legal a sem-abrigo e serve pequenos almoços todas as semanas a sem abrigo num centro de apoio a mulheres chamado N Street Village. É ainda voluntária numa escola pública onde ensina temas relacionados com ambiente (a escola chama se Oyster Adams School e é uma escola pública bilíngue (inglês – espanhol) com alunos de todas as partes do mundo, desde Azerbaijão a Espanha, América Central, etc. Gosta de viajar, experimentar comida de todas as partes do mundo e partilhar tudo isso no seu blog de viagens (http://helenaaroundtheworld.blogspot.pt/).

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