João Teago Figueiredo | “Itinerário Complementar”

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Convidado do José Pedro Gomes***

Jorge Fallorca começava assim uma das passagens de Longe do Mundo (frenesi, 2004): Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.

O mais inquietante nesta advertência é aquela disfarçada associação entre escrita e finitude. Desde o início que a literatura aparenta ser a forma mais eficaz de fugir ao esquecimento. Que o digam Camões, Camus ou Manuel António Pina. O primeiro, a páginas tantas, parece sugerir que a coisa se faça através da criação, que não é exactamente o mesmo que dizer que só através da escrita (Os Lusíadas, Canto I – 2). Já o último, pelo contrário, havia vaticinado que a poesia vai acabar, os poetas/ vão ser colocados em lugares mais úteis./ Por exemplo, observadores de pássaros/ (enquanto os pássaros não/ acabarem), num livro intitulado Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde publicado em 1974 pela editora Regras do Jogo. Subitamente, tudo em Pina nos parece meticulosamente intencional e irónico: a estrofe, o título da obra, o nome da editora.

Parece existir no poema uma irresistível vertigem em direcção à inevitabilidade e ao esquecimento, caminho do qual não há retorno possível, um vaticínio tremendista próprio das existências mais laicas. Porém, Fallorca já antes advertira que não há nada que garanta que escrever nos torne mais saudáveis e, por essa via, mais infinitos. O que, desta ou daquela forma, legitima o veredicto de Pina.

O próprio Manuel António Pina, num outro poema, confessa que o que verdadeiramente o move é a possibilidade de combater as memórias, a memória, assegurando: Escrevo contra aquilo de que me lembro/ aquela tarde parada, por exemplo. Há, nesta passagem, uma espécie de luta contra tudo quanto nos precede e do qual somos devedores. Pensava nisto ao mesmo tempo que chegava à conclusão que o mundo moderno tem sido demasiadamente dominado por dicotomias tentadoras, das quais dificilmente conseguiremos sair com vida.

As velhas divisões estão hoje resumidas a pequenas aritméticas de algibeira, o deve e o haver das contabilidades de poder. Tal como a Sérgio Godinho, também a mim me parece ou é cada coisa para seu lado/ ou isto anda tudo ligado, com vantagem clara para a segunda hipótese. Não deixa de ser igualmente certo que nunca como hoje a democracia teve tanto de tenebroso, de difuso e de descartável. Muito do que paira é feito em nome de um futuro que, de tão imaterial e ilusório, nos conduz a um submerso paraíso para jovens turcos. A este propósito, Fallorca remata com eficácia: Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente. Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita – como qualquer outro acto criador – precisa de vítimas. Por muito Foucault que se tenha lido na infância, estes três últimos anos têm sido difíceis de digerir.

Tenho para mim que, neste momento, o mais importante é não perder o sentido de humor, caminhar sem demasiada relutância em considerar o futuro e preservar um razoável desdém pela espuma do presente. Mas o que é certo é que, 40 anos após a chegada das liberdades cívicas, mais de oitocentos mil portugueses estão desempregados e quase um quarto da população está em risco de pobreza e exclusão social. Muitos destes, mesmo com emprego, não conseguem deixar de ser pobres. O mundo, tal como a escrita, também precisa das suas vítimas. Ainda assim, a solução parece ser voltar a ler/ toda a poesia desde o princípio do mundo./ Uma pergunta numa cabeça./ – Como uma coroa de espinhos:/ estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

***João Teago Figueiredo, 29 anos, é um economista com uma perigosa inclinação para deambular entre múltiplas personalidades paralelas. Tem uma particular predilecção por livrarias de bairro, blocos de notas e esferográficas pretas. Ao final da tarde, ouve The National enquanto se questiona sobre o sentido da vida.

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