Julia

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Antiga pintura sobre tela ao envelhecer, por vezes, torna-se transparente. Quando isso acontece, nalguns quadros, é possível ver as linhas originais até então escondidas. Uma árvore ver-se-á através do vestido de uma mulher, uma criança escondia uma mulher adulta, um barco não esteve, afinal, sempre no mar alto. A isso se chama “pentimento” – o pintor, de repente, mudou de ideias. Julia (Fred Zinnermann, 1977) é sobre essa mudança. Mas é, sobretudo, um filme sobre a amizade em que as personagens principais, duas amigas de infância agora crescidinhas, são interpretadas por Jane Fonda e Vanessa Redgrave. Além disso, faço já a advertência, todos os cuidados são fundamentais a um espectador nostálgico: este é dos poucos filmes que consegue descaradamente sugerir o conjunto complexo de associações que um adulto carrega toda a sua vida nas memórias de infância.

Mas, voltando ao tema, este é um filme que tenta (e, digo já, consegue) definir a amizade, uma das relações humanas mais difíceis de representar no cinema por ser tão profunda, tão misteriosa, podendo mesmo, num filme, ser um anticlímax. Nesse sentido, Zinnermann superou-se.

Apesar de tantas mudanças (de ideias, ideologias, estilos de vida, gostos), sobretudo por Julia (Redgrave) que decide abraçar as lutas socialistas durante o Nazismo, Lilly (Fonda) tolera todas essas mudanças – no fundo diferenças – até à morte de Julia. A tentativa de definir a amizade está aí, na tolerância com a mudança, fomentada pela dúvida, pela curiosidade constante, de conhecer o outro, de o ir conhecendo até, apalpando e aproximando terrenos que nos são estranhos até se transformar em algo como o afecto ou o carinho, expresso, quantas vezes, no mais vulgar e excepcional gesto. Neste filme, entre tantos outros, o gesto, absolutamente desinibido, quase descontrolado, acontece na cena passada no restaurante quando, ao fim de vários anos, Lilly encontra Julia. No final da conversa, Julia levanta-se e descobrimos nós, juntamente com Lilly, que Julia tem uma perna falsa e, por isso, manca. O rosto de Lilly, a sua reacção, o terror, o medo, na surpresa de descobrir que a amiga, o seu ídolo (das primeiras coisas que lhe diz é “continuas a parecer-te como ninguém”) é um corpo enfermo. O contraste entre a beleza de Julia (física mesmo, sem ponta de piedade) e esse handicap representados no rosto de Lilly – diga-se de passagem uma representação formidável de Jane Fonda –, provoca, mesmo no espectador mais distraído, uma emoção violenta. Imediatamente fui transportada para a cena em que Charles encontra Sebastian, em Marrocos, na série original Brideshead Revisisted.

Confesso que já vi o filme há algum tempo mas, de quando em quando, regresso a esta cena. Penso que é essa possibilidade de viajar no tempo que me fascina no cinema que também está ligada a uma linguagem de recordação, a qualquer coisa que vem de longe e nos assalta de repente, inesperadamente.

Graça Canto Moniz

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