Luís Costa | “Piano appasionato”

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Convidado da Graça Canto Moniz***

O piano ensinou-me muito, mesmo aquilo que menos podia esperar. Num percurso musical de tamanhos encontros, com tantos professores, com tantos músicos, com amigos pelo meio, que sempre se esforçam em fazer-nos mestres de nós mesmos, tudo me fez pensar e me fez decidir. Desde cedo, e muito antes de o piano estar nas minhas prioridades, paulatinamente me ia interrogando sobre o que me poderia seduzir na música, a dita clássica, aquela a que hoje me dedico. Sempre me fascinaram os amores à primeira vista, nos quais, ainda confio. Mas este parece não ter sido um deles, apesar do final feliz. Fui descobrindo que ela, a música, me consentia pensar, me permitia escolher e me possibilitava descobrir. A música tem um vínculo tão profundo com a história, com as pessoas, com os seus amores e desamores, com lugares, com livros, com um sem fim de coisas que nos são tão próximas, numa espécie de dialógica entre certezas e incertezas. Tantos me trouxeram mundos novos, tantos me fizeram partir para outros, numa desordem quantas das vezes inexprimível por língua. Chopin trouxe-me o zal, a alma de um povo, Vianna da Motta um sentimento de saudade, Liszt um amor impossível, pace non trovo, Schumann a inocência de uma criança, mas todos me deixaram o infinito, no inesgotável de uma realidade imaterial. Lidei muito de perto com o público e, na minha área em específico, diria que muitas vezes com o não-público. Pior surdo aquele que não quer ouvir. Apercebi-me frequentemente que a resiliência em ouvir, seja Bach, Beethoven, Chopin, Schubert, Schumann, Prokofiev, Ravel ou outros tantos, não será muito mais do que indisponibilidade mental.

Não pretendo defender qualquer tipo de música em oposição a algum outro, e sem qualquer propósito de sectorização, apenas confronto um mundo que me é mais próximo com ele mesmo e com as suas particularidades. É perigoso quando a rejeição vem antes do entendimento. Para ouvir é necessário estar disponível, e aceitar um mundo complexo de incertezas. Por vezes as incertezas assustam, obrigam a pensar e a escolher. A música conduz-nos à aprendizagem da complexidade, porque enquanto estrutura complexa, impede a fragmentação e, portanto, o pensamento simplificador. A distância que separa o músico do público não está na capacidade de ouvir, que muitas vezes pode ser semelhante, quanto mais não seja em potencial, ainda que a níveis diferentes. Ambos podem ser excelentes ouvintes. A distância concentra-se na capacidade de executar, que jamais servirá de desculpa para não disfrutar e entender a música. A música conta-nos sobre pessoas, o amor, o desamor, as cores, o inferno, o céu, a morte. A música rouba-nos todos estes pedaços da nossa condição humana para “separar a emoção de motivos e circunstâncias específicos, dando-lhes uma independência que é também uma forma de prazer, mesmo quando as emoções envolvidas são sombrias ou perturbadoras”(Kramer). Só assim poderemos ter “prazer”, aprendendo com a morte, com o ódio, ao mesmo tempo que a perseverança ou a paixão, por exemplo.

 Porque a música nos faz pensar, obriga-nos a parar. Hoje não se sabe parar, ou para-se pouco, ou não se pode parar. As pessoas não acreditam no tempo, deixam-no fugir. Numa era virtual, de velocidade, de relações efémeras, as pessoas deixaram de pensar, deixaram de se conhecer, ou de poder conhecer-se, e de querer conhecer os outros. A música prendeu-me, então, à consciência do quão importante é ser apaixonado, estar disponível a olhar os detalhes, o feitiço dos defeitos, ter os sentidos mais vigilantes. A paixão traz o sucesso, pelo menos aquele que é honesto e sincero. O piano fez de mim um apaixonado, pelo que faço e por aqueles que fazem aquilo que sou. Aprendi a ouvir, a ouvir o inexplicável que os sons me possibilitam, a ouvir o outro, a respeitar aqueles que para nós escreveram, vingando a minha criatividade nos limites da sua genialidade. No fim é simples, vale a música pela música, que nos vem das entranhas, sem barreiras. O piano não me deixa cair no esquecimento de que o ritmo do corpo é tão importante como o ritmo da mente e por isso “em todas as épocas há pessoas que não pensam como as outras. Ou seja, que não pensam como os que não pensam” (Yourcenar).

***Luís Costa iniciou os seus estudos musicais aos 8 anos de idade, e desde então a sua carreira levou-o a ter actuado em cidades como Girona, Roma, Joanesburgo, Pretória, Cidade do Cabo, Otava, Toronto, Montreal, Harare, Windoek, Londres, Frankfurt, Estugarda, Léon, entre outras, incluindo salas como Casa da Música, Glenn Gould Studio, Auditorio Ciudad de Léon, etc, ou festivais destacando Festival Saint Pere de Rodes, Festival Percursos da Música, Ciclo Novos Talentos do Teatro Campo Alegre. Gravou para a “RTP” e para a rádio “Antena 2”, radio CHIN, e NBC television. É representado pela agência KNS artists management. Os seus próximos projectos levá-lo-ão a uma tour na China, EUA, Suécia e festivais em Espanha. 

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