Nós feirar

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(Publicado no Jornal do Centro)

Começo o texto com um desabafo que já escrevi num blogzito pessoal sobre a vida moderna. Algo como “crescer é descobrir que a vida moderna se desenvolve profunda e rapidamente a partir de superfícies: das pessoas, das relações, etc.” Ora, vem isto a propósito do slogan publicitário da Feira de S. Mateus “Nós (um-pretenso-e-superficial-coração-a-separar-os-dois-termos) feirar”.

Várias conclusões se retiram do binómio Slogan-Coração: primeira, é um slogan à Jean Pierre viens ici que já vais apanhar, ao nível da meia branca em sapato de verniz. E refiro-me ao carácter primitivo (neandertalesco, arriscaria) e confuso com que foi utilizado o termo “feirar”. Segunda, e relacionado com o coração, este não é nenhum coração apertado à la Jardins Efémeros é mais um coração sem alma, tal como a política municipal de cultura. Terceiro, a tal questão de modernidade (mas, afinal, falta dela) este slogan parece ter sido desenvolvido por um emigrante de primeira geração, não por estes novos emigrantes que gingam a anca ao som do Nicolas Jaar e dos Artic Monkeys.

nosfeirar

É que se é para parecer modernaço é só fogo-de-vista: o miolo é de Carreiras, Canários e Barreiros. É enganar o visitante. E, mais, se tivesse sido sujeito à condição de “coração participativo”, tão em voga, certamente que, melhor que a CMV, a população viseense sabia conjugar o verbo correctamente: eu feiro, tu feiras, ele feira, nós… feirar. Queremos uma feira moderna? Sim. Ser moderno é usar mau português? Não, mas é ser superficialmente pretensioso.

Graça Canto Moniz

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