O snobismo de François Hollande espanta?

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Imagine-se a seguinte situação: x (bem parecida e sofisticada) escreve um livro a dizer que y (um burguês feio mas poderoso) é um snob (puro, sem gelo) que desdenha os pobres (os camaradas). Há abinitio um julgamento prévio de desprezo perante este cenário. Uma certa repulsa até.

Agora imagine-se que esse burguês, feio e poderoso, é o Presidente da República Francesa, François Hollande, esse socialista, que fala em defesa dos desprotegidos, contra os poderosos, dos pobres, contra os ricos; o salvador da esquerda europeia, um “modelo para o socialismo luso” é, afinal, um snob. Esta revelação veio provocar algum agite nas redes sociais e, digo isto sem querer ofender alguém, nas mentes mais incautas.

Evidentemente, o snobismo não está associado a um partido ou a uma ideologia; de acordo. Mas, e isto é inegável, à esquerda sempre houve uma necessidade de erguer como baluarte, como causa, uma massa inerte e subjugada. Inicialmente, foi o proletariado industrializado. Seguiram-se os imigrantes, as mulheres, negros, palestinos, animais, homossexuais, florzinhas, melómanos surdos, pansexuais, cinéfilos invisuais… younameit, a esquerda apoia! E, claro, os pobres.

Logo por esta razão, digamos “estrutural”, do pensamento esquerdista, seria de espantar esta atitude de Hollande? Não. O último século ensinou-nos que à esquerda caviar até pode faltar o ideal de esquerda, o caviar é que não se dispensa.

O que espanta é a incoerência de quem adopta um discurso “igualitário”, condenando a ganância, o individualismo, o lucro e, além de desprezar os mais pobres em privado, muitas vezes vive como um ricalhaço ou um magnata.

Penso, por exemplo, em Bill Clinton, o queridinho dos progressistas, que, enquanto pensava na melhor forma de combater a desigualdade e aumentar os impostos dos mais ricos, acendia charutos de mil dólares – privilégios exclusivos daquela grupeta dos 1% mais ricos da América.

Podia falar também da fortuna dos Kirchner, que desde 2003 aumentou 687%, mas limito-me a remeter para um livro de um escritor brasileiro, Rodrigo Constantino, chamado “Esquerda Caviar” disponível aqui que quase podia ter como título “Ser de esquerda, no século XXI, é ser hipócrita”.

Graça Canto Moniz

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