O sucesso do pensamento único

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Jornal do Centro – 19-09-2014

“Vivemos acima das nossas possibilidades”. “Não há alternativas”. “O único caminho é este”.

Esta tese representa o grande sucesso do Governo Português, com impacto na sociedade e na opinião pública. Sustenta-se a si mesmo, condiciona o debate e fecha o universo do pluralismo.

O PS também tem culpa nisto. Aceitou a tese, aceitou a agenda e partiu do princípio de que a ideologia dominante era inquestionável, tínhamos só que ir mais devagar. E tem perdido o debate. Um debate onde se coloca a moralidade, num momento em que os partidos deixam de ser reserva moral da sociedade. Onde se coloca o esbanjamento, numa crítica constante à esquerda que não consegue responder a esse populismo e imediatismo. Onde se coloca a própria relação natural de Portugal com a pobreza, lembrando outros tempos, e usando-a como colateral.

Apesar de os princípios serem perigosos, tudo isto é feito com sucesso. Aceitam-se as alterações na legislação laboral, perdendo a parte mais fraca. A classe média fica paradoxalmente cada vez mais abandonada e sem defesa, tanto por parte dos discursos do PS como do PSD, quando ela própria foi o principal alvo da austeridade. Assistimos a um claro ambiente de impunidade e à ausência de manifestações e protestos, como nunca se viu, por parte de uma “maioria do contra” que existe, mas não tem expressão política. Ouvimos constantemente o discurso da divisão, entre “novos e velhos”, entre “privado e público”, numa divisão social sem paralelo, em que “uns têm de pagar o ónus”. Decidimos ser mais europeístas no preciso momento em que a Europa é “menos Europa” e aceitamos os termos de um pacto orçamental devastador, inimigo do desenvolvimento e que nos coloca submissos.

É o sucesso do pensamento único. Do discurso das “inevitabilidades” e da pouca importância do valor da liberdade e da independência, acabando por se realçar a mediocridade obediente e até o medo.

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Tudo isto está ligado a fragilidades ideológicas, que demoram tempo a ser colmatadas.

E assim, estamos…como estamos. Com uma mínima esperança de que este “sucesso” seja mais conjuntural do que estrutural e que, nesse sentido, esteja a terminar o seu caminho, rumo ao debate, ao pluralismo e às alternativas.

José Pedro Gomes

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