O tédio em Viseu

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O tédio é, para algumas pessoas, detestável, um pecado que não tem perdão. Mas, talvez para essas mesmas pessoas (ou para outras, quem sabe, o mundo é complexo), o pecado salva-as da banalidade. Como diz a personagem de Late Bloomers (foleirote, concordo), com William Hurt e Isabella Rossellini: “Se em criança não aprendemos a lidar com o tédio, quando crescemos ficamos idiotas”.

De qualquer modo, numa primeira impressão, viver em Viseu pode, sejamos realistas, ser entediante. Mas a verdade é que, viseense que se preze, ainda que pecador, não é, de todo, banal. Muito menos idiota. Por isso, caro viseense quando estiver embebido do ennui viseense é dar um saltinho ao mercado municipal. Não, não é para comprar a frutinha nem o tomatinho, é mesmo para dar um passinho de dança ao som da maravilhosa música que por lá passa. Não sabia? Nem vale a pena ir à discoteca ali ao lado, agora pode comprar batatas e couves mixadas com os decibéis do BangBang, em tempos disparado pela Nancy e nos dias que correm pelo David. É modernaço, o mercado ganhou outras dimensões, planetárias, cósmicas. E quem diz cósmicas diz cómicas. E quem diz cómicas diz ridículas. E quem diz ridículas…

mercado municipal

Não é invenção, aconteceu comigo: a semana passada comprei pêssegos na Silvina ao som do Pitbull e da Kesha. No fim, fiquei ali parada, deslocada, a olhar à minha volta, com o peito apertado e a pensar que nada poderia estar mais distante da ideia que tenho de um mercado municipal. Valha-me o cinismo, investimento seguro e que me deixa em paz, como os mortos, é que a falta de esperança já me liquidou a tristeza. Sobretudo… sobretudo já não sou criança e infelizmente aprendi a lidar com o tédio. Mas, sinceramente, preferia ser idiota a “viver esta Viseu”.

Graça Canto Moniz

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