Precisamos de Amor e de Poetas

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Quando há dois anos escrevi para a Quadratura da Sé, terminava assim:

Para ouvir é necessário estar disponível, e aceitar um mundo complexo de incertezas. Por vezes as incertezas assustam, obrigam a pensar e a escolher. A música conduz-nos à aprendizagem da complexidade, porque enquanto estrutura complexa, impede a fragmentação e, portanto, o pensamento simplificador.

(…)

No fim é simples, vale a música pela música, que nos vem das entranhas, sem barreiras. O piano não me deixa cair no esquecimento de que o ritmo do corpo é tão importante como o ritmo da mente e por isso ” em todas as épocas há pessoas que não pensam como as outras. Ou seja, que não pensam como os que não pensam” (Yourcenar).”

Hoje, e na mesma combinação de ritmos, escrevo em forma de convite. No próximo dia 3 de Maio, na Casa da Música, estarei no palco a partilhar música, e felizmente também amizade, com José de Eça, tenor. E, escrevo na esperança de reconquistas essa natural disponibilidade para ouvir. Do programa de dia 3, escolhi o ciclo “Amores do Poeta”, de Robert Schumann, inspirado em poemas de Heine. É este ciclo que nos levará ao maravilhas mundo das incertezas. O objetivo é, pois claro, despertar vontade em ouvi-lo. “Amores do Poeta” são, quase, uma ode ao amor. O amor, quase divino, ligado ao belo, e tudo o que lhe pertence e pode fazer despertar em alguém uma pessoa para ser amada. É a importância da ligação, o estar ligado. Schumann escreve esta obra num período de separação de Clara (sua mulher), como confirma  a sensação de sofrimento presente em variadíssimas passagens do ciclo. Aliás, o fim é, desconcertantemente, incógnito. É curioso que traz uma questão muito próxima de todos nós. Do mundo, diria. O amor e sofrimento, que noutras circunstancias pode também ser disfarçado de paz e guerra.

Esta música fez-me chegar a Dostoievsky que sempre incluía este tema nos seus pensamentos. Alguns deles podem perfeitamente ser uma chave para entendes estes “Amores do Poeta”. O escritor Russo acreditava que a dor e o sofrimento acompanhavam sempre uma inteligência elevada e um coração profundo. Eu diria que Schumann se identifica de tal forma com o poema e usa-o para celebrar o seu amor por Clara. E o amor traz-lhe o inferno e o céu. É como nas palavras de Heine, que eu arrisco dizer, pela força da música também de Schumann: “chorei sonhando”. A música traz-nos aqui uma lição de como incorporar a naturalidade da nossa atitude, de compreender as grandes contradições. É, por isso, e em conclusão da obra, que em resposta à pergunta – sabei vós porque o caixão é tão grande e pesado? – as palavras de Heine e a música de Schumann respondem – para sepultar todo o meu amor e a minha dor. Sofrer por amor, é amar ou sofrer? Outra inteligência elevada, como estou certo que Dostoievski lhe chamara, Woody Allen solucionava um trocadilho* de sua autoria com o mais vale sofrer de demasiada felicidade. 

Esta é uma das possíveis viagens que podemos fazer através da música, ou esta obra em concreto. Dia 3 de Maio, poderão fazer-se ainda muitas outras obras, pelas mãos de Wagner, Duparc ou Strauss. Precisamos de Amor e de Poetas.

Dia 3 de Maio, 19.30, sala 2, Casa da Música,

José de Eça e Luís Costa

*To love is to suffer. To avoid suffering one must not love.

But then one suffers from not loving. Therefore, to love is to suffer;

not to love is to suffer; to suffer is to suffer.

To be happy is to love. To be happy, then, is to suffer, but suffering makes one unhappy.

Therefore, to be happy one must love or love to suffer or suffer from too much happiness. 

 

O Luís Costa é – além de muito amigo – o convidado da Graça Canto Moniz que é, também, uma das suas várias fãs.