Tiago Barbosa Ribeiro | “Interrogar os novos desafios autárquicos a partir do Porto”

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Convidado do José Pedro Gomes ***

O meu amigo José Pedro Gomes convidou-me a escrever um breve contributo para o seu blogue, situando-o a partir do Porto e de algumas experiências concretas que estamos a viver na cidade. Divido-o por isso em dois pontos que se tocam.

1.

O ponto de partida tem de ser necessariamente a capacidade de percebermos as mudanças que estão a ocorrer na recomposição do sistema partidário, fomentando fenómenos locais que desafiam as velhas lógicas e, por isso, as respostas clássicas.

Nas últimas autárquicas, o Porto terá sido precisamente o exemplo mais clarividente dessa transformação, exprimindo uma óbvia desafectação em relação aos partidos tradicionais que atingiu todos sem excepção. O contexto nacional e a crise ajudam a abrir essas válvulas, é certo. Por vezes podem até ser injustas, na medida em que os programas dos partidos são recusados meramente pelo seu valor facial, mas se os partidos não olharem para os sinais e reagirem positivamente a eles, sem rancores inusitados face à escolha dos eleitores, então teremos uma crise sistémica que fervilha no poder local e rapidamente se alargará a outras esferas do poder.

Separando claramente falsos independentes de independentes com projecto, que não se afirmam pelo populismo anti-partidos, pelo contrário, os partidos têm necessariamente de reconstruir a confiança perdida com os eleitores abrindo-se a essa novidade, que pode ser mais ou menos personalista, mas que encerra sempre algo diferente e que pode ser certamente plural. De forma aberta e leal, não se tentando substituir a ela ou absorvê-la quando entende trabalhar a seu lado, o que só agravaria as penalizações eleitorais, os partidos têm de perceber que muitas dinâmicas locais escapam ao controlo de máquinas tantas vezes enquistadas, e que os velhos ciclos de acção–reacção a cada quatro anos têm de ser repensados.

É para mim muito claro que nas próximas autárquicas este fenómeno tenderá a generalizar-se ainda mais e os partidos não têm por que resistir a ele fechando-se em trincheiras que nada dizem aos cidadãos.

Não quer isto dizer que os partidos devam transfigurar-se numa coisa ou outra, menorizar os seus projectos e soluções, suavizar o peso das suas estruturas ou menosprezar aquilo que é comummente designado como máquina. Pelo contrário. Importa é consciencializar uma nova geração de autarcas e dirigentes locais que há muito por onde somar nas nossas Juntas e Câmaras Municipais. Sabendo agregar e dialogar, será sempre possível ultrapassar sectarismos ideológicos e pequenas tácticas, com coligações oficiais ou não, pré ou pós-eleitorais, que demonstrem uma vontade real de trabalhar para mudar a realidade local, com mais acção prática e menos retórica vã.

Essa lição é certamente uma das mais relevantes que pode ser extraída do Porto para outras cidades: o fenómeno em si, neste caso do actual presidente Rui Moreira, corporizando uma óbvia expressão da maioria dos eleitores durante a campanha autárquica; e a capacidade de um partido, neste caso o PS, de responder a ele fora dos quadrados tácticos que tantas vezes afastam os cidadãos dos partidos e os partidos do que devem fazer pelos cidadãos.

2.

Num segundo momento, a execução do poder autárquico: em nome de quê?

No que diz respeito às linhas-mestras da governação local, para não ser exaustivo, saliento três prioridades que depois se desdobram sectorialmente: desenvolvimento económico, mobilizando todos os mecanismos directos e indirectos que as autarquias dispõem para esse efeito, incluindo um ambiente urbano cosmopolita e organizado (fiscalidade, mobilidade, espaços verdes, infra-estruturação, desporto, lazer, urbanismo, smart cities, inovação, etc), dando particular ênfase ao apoio a negócios escaláveis e globais que são desenvolvidos nas maiores cidades do mundo e em relação aos quais Portugal não pode ficar alheio, isto é, apoiar ecossistemas empreendedores que são pólos de criação, conhecimento e emprego qualificado, mas também de uma vida urbana viva; coesão e igualdade, com um recorte multifacetado (habitação, combate à pobreza, limitação de exclusões), sem o qual nenhum desenvolvimento económico faz sentido e que tem de ser preocupação central dos programas do PS em todas as autarquias, orientando-se para os tradicionais territórios de desigualdades, mas também para novos fenómenos associados, entre outros, a famílias sós, jovens que não estudam nem trabalham, desemprego nas classes médias – verdadeiros cimentos sociais – e problemas associados a cortes de rendimentos; por último, entender a cultura como valor distintivo de uma cidade. Não se trata de uma expressão gasta nem que possa ser usada para colorir programas. A cultura tem em si mesmo um valor económico e, na sua plasticidade, é essencial para a fixação de jovens e empresas na economia global (criando ambientes urbanos abertos e atractivos), para acompanhar novos negócios (a baixa do Porto aí está para o demonstrar), para complementar apostas turísticas de massas e de nichos, e para dar densidade às identidades locais, com infra-estruturas de qualidade, com parcerias que colmatem as falhas financeiras dos tempos que vivemos, com formação de públicos e com a diversidade cultural, de concertos ao teatro, da arte contemporânea à literatura, do cinema à dança, da rua às salas de espectáculos, que permitam inquietar e mexer uma cidade durante 24h.

É tudo isto um pouco que estamos a tentar fazer no Porto, reforçando os laços identitários desta cidade burguesa e popular, historicamente liberal e aberta ao mundo, reconstruindo o seu papel no mapa das melhores e maiores cidades da Europa.

Não sabemos onde conseguiremos chegar, mas temos a certeza para onde é que vamos caminhar.

***Tiago Barbosa Ribeiro é licenciado em Sociologia pela Universidade do Porto, com tese de licenciatura no âmbito de trabalho, gestão e organizações. Tem uma Pós-Graduação em Gestão pela Porto Business School. Exerce funções de gestão num dos maiores grupos industriais portugueses. Participou na obra «Onde Pára o Estado? Políticas Públicas em Tempo de Crise», tendo várias publicações e participação regular em conferências, blogues, programas de rádio e imprensa. Foi Presidente da Concelhia da JS Porto e da Federação Distrital do Porto da Juventude Socialista entre 2009 e 2013, tendo também feito parte de vários Secretariados Nacionais da JS até 2012. Foi membro da direcção da bancada do PS na Assembleia Municipal do Porto entre 2009 e 2013 e integrou a lista do PS à Vereação na Câmara Municipal nas últimas autárquicas. É actualmente porta-voz do PS Porto.

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