Tradição e modernidade

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Escrevi, para a edição do dia 26.12.2014, um texto para o Jornal do Centro que vai assim:

A CMV celebra o Natal num ambiente de dispersão dramática entre tradição e modernidade. Passo a explicar: É nos oferecido um slogan natalício – “Viseu Natal. SonhoTradicional” – concretizado num presépio que pouco tem de tradicional. Uma modernice e uma declaração de guerra à beleza da tradição ou uma tentativa esforçada para que esta seja eleita não cidade-região mas cidade-província(na)? Diria mesmo tratar-se de um caso de profanação à ideia social de presépio, de revolução gramsciana e transformação social, i. é, destruição dos valores da tradição ocidental. Exagero meu? Provavelmente.  Uma coisa é certa: Se a criação artística é livre a sua contemplação e interpretação também o são. E aquele, para todos os efeitos, é um presépio sem alma.

Não me interpretem mal, sou capaz de abraçar a novidade como quem abraça um tio querido que não vê vai para uma década, mas isso dependerá sempre de quão tradicional a novidade é e do grau de atentado da modernidade que é intrínseca à tradição. E esta ligação aparentemente contraditória entre inovação e tradição é o paradoxo central da própria Arte moderna. Mas, há também o problema da tradição no momento presente, tempo das verdades absolutas voláteis, que quando criam raízes rapidamente são cortadas. Há um “desassossegono ar”, diz Boaventura de Sousa Santos, rei sem coroa do condado da Sociologia.Sobre este tema recomendo, The invention of tradition, do Eric Hobsbawn e do Terrence Ranger.

Mas fugo ao problema: é que o presépio do Rossio não é tradição, não é inovação, é aberração, é parolice, encontrando paralelo no “Nós Feirar” e na incrível estátua do D. Afonso Henriques. Três casos penosos e indicadores da debilidade galopante, criativa e artística, da CMV.

 Graça Canto Moniz

(A fotografia foi retirada do blog da pessoa que a assina)

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